Stephen King se junta ao filho no novo livro ‘Belas Adormecidas’

Como em ‘Sob a Redoma’, ‘Belas Adormecidas’ é escrito de forma direta

This cover image released by Scribner shows "Sleeping Beauties," a novel by Stephen King and Owen King. (Scribner via AP)

O apaixonante Sob a Redoma, de Stephen King, sonha com uma pequena cidade do Mane jogada numa situação irreal: o lugar é repentinamente coberto por uma redoma invisível e impermeável. É um livro longo e com um grande número de personagens, mas o drama dessa crise deixa todos eles focados. É um de seus melhores livros, tirando o seu terror da natureza humana, não de uma viagem para um território de fantasia do medo.

Agora, ele e seu filho, Owen King, tentam fazer algo similar em Belas Adormecidas. A pequena cidade é Dooling, em algum lugar perto de Appalachia, com recepção de sinal das televisões e rádios da Virgínia Ocidental. A situação estranha é: mulheres que dormem e não acordam, e elas começam a criar gavinhas, o que será um grande problema. As gavinhas se tornam casulos, e é tentador se livrar desses casulos. Isso não é aconselhável. O anjo adormecido que parece tão pacífico pode arrancar um olho se a sua penugem for bagunçada.

Como em Sob a Redoma, Belas Adormecidas é escrito de forma direta. Não há grandes passagens em itálico. Essa é a boa notícia. A notícia não tão boa é que o livro em co-autoria é sonolento. Tem muitos personagens, mas poucos deles dão vida e muitos deles parecem repetitivos. Sem especular como foi o processo de escrita entre pai e filho, parece que algum tipo de troca de gentilezas impediu este livro de 700 páginas de ser utilmente mais apertado.

O cenário principal é uma prisão feminina inspirada por The Auld Triangle, uma canção da peça The Quare Fellor, de Brendan Behan, mais recentemente popularizada pelo filme Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum. Nós conhecemos todo mundo nesta prisão, do guarda ao prisioneiro ínsone que matou toda a família, incluindo o cachorro.  A insônia reaparece depois na história. Também conhecemos a xerife de Dooling, Lila Norcross, que é o mais próximo que esse livro lotado tem de uma protagonista.

E nós também conhecemos a linda e misteriosa Eve Black, cujo nome é uma referência a As Três Máscaras de Eva, clássico de uma mulher com transtorno de múltiplas personalidades. Talvez Eve fale com diferentes aspectos da femininidade.

Ou talvez Eve seja uma alteração perversa do Gênese. “Eve não confia na cobra, obviamente”, escrevem os King num breve prólogo situado numa clareira na floresta parecida com o Éden, com animais exóticos e grandes árvores. “Ela já teve problemas com ele antes.”

O que quer ela seja, Eve rouba a cena. Ela zomba de todos os homens, tem poderes sobrenaturais e comanda o exército de mariposas que causa o único medo real do livro. E ela é importante durante as muitas, muitas cenas em que as mulheres caem no sono. Depois de percebermos isso e descobriremos que a doença, chamada de vírus Aurora, é uma praga mundial, as mulheres que tiveram seus casulos violados começam a agir como zumbis. E um seleto grupo delas é levado a um lugar mágico onde está a árvore. Elas encontram o paraíso. E isso deve ser tudo que você precisa saber sobre Belas Adormecidas, elas chamam o paraíso de Nosso Lugar, como se fossem um grupo de apoio dominando uma cafeteria.

Enquanto as mulheres adormecidas/acordadas se juntam e deixam para trás seus casamentos ruins, os homens deixados para trás agem de forma estereotipada. Alguns são justos. Alguns são brutos. Um caminhoneiro idiota começa a pregar que as mulheres mereceram o que tiveram por usar calças. E alguns justiceiros querem queimar os casulos (péssima ideia). Rumores não correm bem. “Num mundo assustador, notícias falsas reinam”, escrevem os autores, evitando a frase mais comum que é tão popular agora. O livro tem sua opinião política, e não é fã da multidão do “fake news”.

Nem mesmo o inevitável apocalipse zumbi parece algo novo. “Parecia como algo vindo diretamente daquela série em que pessoas mortas voltam a vida”, o que é uma estranha referência obsoleta para o mais velho King fazer, considerando o fato que ele é mais conhecido por escrever filmes e séries do que assisti-los. Belas Adormecidas vai, inevitavelmente, chegar às telas de alguma forma. Quem adaptar o livro terá que se livrar de alguns personagens e desviar a atenção do não muito emocionante tema principal. Como Eve coloca: “Acho que pode ser o tempo de apagar toda a equação entre homens e mulheres. Apenas deletar e começar de novo. O que você acha?”

O que você pode ter pensado é: meh. Para um livro sobre reiniciar estereótipos de gênero, esse, surpreendentemente, se apega com força a eles. As mulheres são curandeiras; os homens são guerreiros ou babacas que merecem morrer. Todo mundo que sobrevive na história é um pouco melhor quando tudo acaba, mas a regra ainda se aplica. E para um livro que separa os sexos, a repentina impossibilidade de sexo heterossexual passa desapercebida. Quando se trata de desejo, refrigerante está melhor qualificado que libido.

Finalmente, a colaboração entre pai e filho produziu uma prosa que os fãs do mais velho vão achar irreconhecível. Ele tem sido conhecido por suas divagações, mas ele é raramente vago. Num típico parágrafo calmo de Belas Adormecidas, um personagem “poderia perguntar uma questão, mas seu cérebro poderia não funcionar de um jeito que desse uma resposta satisfatória. Qualquer resposta dissolvia antes de ser formada… Por que parecia tão difícil, apenas ter feito seu trabalho? Aquelas respostas não seriam coesas.” Stephen King não se tornou Stephen King por falar pelos cotovelos desse jeito.

Stephen King recém completou 70 anos, mas ainda toca na sua criança demoníaca interior. Nem King precisava contemplar ponderações sem sentido como: “Evie veio da Árvore? Ou a Árvore veio de Evie? E as mulheres do Nosso Lugar – seriam elas sonhadoras, ou seriam o sonho?”

 

Fonte: Estadão Cultura