Sobre a dor e a delícia de ser uma editora

Em artigo para o PublishNews, Trini Vergara fala sobre os 20 anos da V&R, editora que fundou em 1996, de como desembarcou no Brasil e sobre os altos e baixos da vida de uma editora

trini

Em 2016, a V&R faz 20 anos. Vejo um filme que passa, em imagens velozes, os primeiros livros, as surpresas, os sucessos, os altos e baixos, as pessoas, as feiras, os aviões, mais pessoas…

Quando, no verão de 1995, comecei a pensar em abrir uma editora, duas forças muito claras me impulsionavam, e as duas tinham raízes em duas emoções contrárias: a alegria e o medo.

Eu tinha sido muito feliz trabalhando os últimos dez anos com meus pais, na Javier Vergara Editor. Havia algo na tarefa de editar que se encaixava perfeitamente comigo: amava os livros, mas não queria uma vida exclusivamente “literária”; lia com paixão, mas gostava da ação, da adrenalina da aposta por um autor novo, uma linha nova, alternar com editores de outras culturas, aprender.

Quer dizer, quando decidi fundar uma editora, me senti totalmente feliz. Ia continuar fazendo algo que adorava, e à minha maneira. Ao mesmo tempo, estava com muito medo. Um terror como o que se sente ao caminhar pelo trampolim mais alto de uma piscina olímpica. Não dá para voltar atrás. E a piscina está em um abismo lá embaixo, azul e profunda, esperando por você. E você pula… Este medo foi o que me levou – e ainda me leva – a procurar, antes de tudo, a forma de neutralizá-lo.

Foi por isso que, em primeiro lugar, procurei alguém que me acompanhasse com um conhecimento fundamental que eu não tinha: o domínio acadêmico de nosso idioma. Eu era economista, com muita teoria e pouca prática, redigia e lia, mas não tinha autoridade em nosso idioma e seu melhor uso. Procurei minha amiga e colega Lidia María Riba, professora de literatura e editora, que se entusiasmou como eu com esta ideia aterrorizante de fundar uma editora. A primeira medida antipânico já estava tomada: éramos uma equipe complementar, funcional.

A segunda medida durou nove meses, simultâneos à gravidez do meu primeiro filho. Não conheço nada das ciências astrológicas, mas um astrólogo teria tirado todo tipo de conclusões. Nesses nove meses desenvolvemos o maior antídoto contra o medo: o plano de negócios. Passei a estudar em detalhe o projeto, investigar o mercado, eliminar custos, estimar fluxos de caixa… Aos dois meses encontrei uma ideia, que submetemos a mais estudos, até que começamos a montar tudo. Eram horas divertidas em que imaginávamos algo grande. Um dia pedimos uns bonecos de livros para um gráfico amigo e saímos na rua para consultar os livreiros.

Aqui faço uma pausa para agradecer a meu amigo Edgardo Skidelsky, fundador das livrarias Yenny, e livreiro de uma visão ampla e clara: ele sempre soube o que se devia e o que não se devia fazer. Foi nosso cliente mais entusiasta, mesmo antes de começarmos. Percorremos muitas outras livrarias, mostrando e explicando nossa ideia: os livros-presente. Em todos os casos tivemos a mesma resposta: “excelente ideia”. Esta prova foi o terceiro e fundamental antídoto contra o pânico, e nos deu a certeza de que devíamos avançar e foi o que fizemos.

Em agosto de 1996, publicamos nossos primeiros quatro livros, em uma edição de três mil exemplares cada um. Dois meses depois outros quatro, mas já com seis mil exemplares cada. Dois meses depois, outros dois livros e duas reimpressões, de oito mil cada. Ficamos estáveis em pouco tempo com tiragens que não diminuíam de dez mil por título e sempre reimprimindo. Foi sorte, foi uma surpresa, uma conjunção de fatores a nosso favor? Acho que foram os antídotos antipânicos. Ou melhor, a obsessão de diminuir os riscos em um negócio de muitos riscos.

Quando se monta uma empresa, por menor que seja, começa um caminho que se parece muito com a vida: dias bons, dias ruins, sucessos e erros, pessoas fantásticas que vão se somando à equipe, e outras que atrapalham o caminho, surpresas, vivências incríveis, problemas insuspeitados, lições aprendidas que enriquecem a experiência.

Pouco tempo depois, tivemos que enfrentar a decisão mais importante de um editor. Porque a decisão inicial é necessariamente intuitiva, e o salto na piscina é inexorável: não se pode evitar. No entanto, depois de transcorridos dois ou três anos, com o projeto já provado, é preciso tomar a verdadeira decisão. Isso é realmente sério? Estamos aqui para crescer de forma sustentável, vamos brigar de verdade, independente da sobrevivência? Queremos complicar nossa vida? Até onde queremos chegar? Em novembro de 1997, pela primeira vez, minha sócia viajava à Feira de Guadalajara. Tínhamos 14 livros no catálogo. Lá, um editor brasileiro se aproximou: “quero comprar os direitos dos 14 livros, são perfeitos para o Brasil”. Felizmente ele demorou e nós decidimos não vender nenhum direito sem antes descobrir como era a edição no Brasil. Em abril de 1998, viajamos para a Bienal do Livro de São Paulo. Dos quatro dias que durou a viagem, fomos à feira só no primeiro dia. Andamos por tudo, conversamos com alguns editores amigos e voltamos ao hotel.

Passamos os outros três dias dentro do quarto, fazendo contas, pedindo room service e usando o telefone: devíamos desembarcar nós mesmas nesse país? Em outro idioma? Em outra cultura? Quem colocaríamos à frente? E nessa mesma viagem contratamos nossa primeira diretora no Brasil e seis meses depois desembarcavam nossos primeiros livros em português (isso ao menos era o que acreditávamos!).

Dois anos depois, foi a vez do México. Já tínhamos presença com um distribuidor, mas sabíamos que estávamos perdendo a verdadeira festa. Tivemos uma diferença importante com aquele distribuidor, e, em outra viagem histórica, tomamos a decisão de abrir nosso escritório mexicano, iniciando todos os passos e contatos necessários ali mesmo. Era fevereiro de 2000.

Hoje, nossos livros-presentes já são apenas 20%-25% de nossas vendas, publicamos mais de 100 títulos ao ano em espanhol e outros tantos em português, desembarcamos na ficção internacional e temos quase 50 pessoas em cada um de nossos três escritórios – Buenos Aires, São Paulo, Cidade do México.

Foi tudo perfeito? De nenhuma maneira. Como na vida, na V&R também atravessamos crises e tivemos golpes duríssimos. A maior dor aconteceu em 2011, com a perda de Lidia María, minha sócia querida, por um violento e rápido câncer. A vida na V&R tremeu, ficamos desconcertados e tivemos que nos rearmar e reorganizar. Também tivemos que chorar em 2014, quando morreu nosso inesquecível e querido diretor no México, Federico Catalano.

A V&R ainda terá novos saltos na piscina, novas aventuras. Já somos uma grande equipe e isso é o que mais desejo para todos. Entretanto, continuo vivendo a cada instante a intensa alegria de ser editora, enquanto que aquele terror abriu espaço para um saudável temor de não estar à altura. Será essa a fórmula, no final?

Fonte: Publisnews