Retratos da Leitura no Brasil – mais reflexões

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil que tem por objetivo avaliar o comportamento do leitor brasileiro, em sua última edição, a 3ª, divulgada há quase dois anos em 28/03/2012, volta a ser comentada por nós por sua repercussão positiva no esforço de incentivo à leitura. Seu resultado aponta que a média de leitura do brasileiro é de 4 livros por ano, sendo apenas 2,1 livros até o fim. Triste notícia se não fosse uma pesquisa, pois como toda pesquisa é apontamento para análise e repercussão.

Certo é que o governo iniciou discussões e levantamentos de novos projetos para tentar sanar este problema, porque como afirmou a ministra da Cultura, Ana de Hollanda, presente na abertura do Seminário com o mesmo título da pesquisa, “A leitura, quando vai além do livro didático, vai permitir a formação do cidadão, vai dar ao cidadão as ferramentas do conhecimento, permitir a ele desenvolver a capacidade de reflexão e análise, de questionar e desenvolver seu pensamento e sua opinião. A literatura tem essa capacidade.”

A leitura é um hábito e como tal deve ser cultivado. Há quem diga até que é um valor, mas os valores também devem ser cultivados, enraizados, implantados. Cultivar a valorização da cultura, do conhecimento por meio do hábito da leitura, este é o desafio. O problema vem de berço, da formação do leitor, das ações e interferências para que este leia e se habitue a ler. Falando em educação infantil, neste sentido, percebe-se diversos esforços, programas com a utilização de livros em diversas atividades, a fomentação da curiosidade relacionando-os com as disciplinas escolares, mas, para mudar este álbum de retratos opacos sobre a leitura, o desafio não está apenas na falta de hábito, na deficiência do acesso ao livro, que começa na infância e que se dá por uma série de motivos, atingindo outras questões como a escolaridade.

Está na falta de empenho de toda a sociedade. Questões que envolvem a educação são muitas, como o controle do livro didático, a valorização dos professores, a polêmica do consumo da merenda escolar pelos professores, a falta de bibliotecas, laboratórios, computadores, enfim, infraestrutura, são desafios que necessitam do envolvimento da sociedade nas políticas públicas voltadas para enfrentar esse quadro. Há exemplo do que sugeriu a deputada Fátima Bezerra (PT-RN), que iniciou o debate sobre o resultado da pesquisa no parlamento, acredita-se que para reverter a situação, a sociedade civil também precisa cobrar resultados dos Ministérios da Cultura e da Educação, de seus dirigentes e de seus eleitos.

O que impede o brasileiro de ler mais é a falta de conhecimento do prazer na leitura. “Quando a pessoa diz que não tem tempo para ler, na verdade, ela tem tempo para outras coisas, como ver televisão”, afirmou Karine Pansa, presidenta do Instituto Pro-livro, que encomendou a pesquisa. A conclusão citada por Amanda Cieglinski (Agência Brasil– 28/03/2012), é demonstrada no resultado, que o maior impedimento é a falta de tempo, citada por 53%, seguida pelo desinteresse, admitido por 30%. Apenas 4% dizem que não leem porque o livro é caro e 6% porque não têm bibliotecas perto de casa.

O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim, afirma que o Brasil está chegando perto da meta de ter pelo menos uma biblioteca pública por município e um dos problemas apontados pela pesquisa é que três em cada quatro brasileiros nunca foram a uma biblioteca. (Ginny Morais – Agência Câmara – 29/03/2012). E ainda falta mais investimento nesta área, haja visto o resultado de uma pesquisa de que duas em cada três escolas não tem biblioteca (aponta notícia no Blog do Galeno, em 07/02/2014) Se possuem uma biblioteca, qual é o fator que impede as pessoas de frequentá-las? É o horário de funcionamento? É a sua atuação? Como são as atividades durante as férias?

No mês de fevereiro (dia 27) comemora-se o Dia Nacional do Livro Didático para relembrar sua importância como ferramenta de auxílio pedagógico, revelado na pesquisa como o segundo livro mais lido depois da Bíblia no Brasil, além do primeiro livro a entrar em muitos lares brasileiros, importantíssimo na formação de leitores. Em abril, comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil (dia 02), em homenagem a Andersen e o Dia Nacional do Livro Infantil (dia 18), em homenagem a Monteiro Lobato, aproveitamos para relembrar que precisa-se urgentemente conquistar o leitor, chamá-lo a participar, encantá-lo, como os homenageados o fazem em seus textos, como o livro didático tem feito com suas mudanças ao longo dos anos

. Precisa-se incentivar por meio da própria televisão, em suas novelas, desenhos animados e até reality shows, o hábito da leitura. Precisa-se mobilizar a sociedade em prol desta prática. Vem aí, uma campanha de distribuição de livros infantis pelo McDonalds, no Kit McLanche Feliz, substituindo o tradicional brinquedo.

Esperamos que faça sucesso, apesar de ser uma iniciativa privada e capitalista, sabemos do grande poder de influência que exerce. Em Belo Horizonte, por meio da Agência de Sistemas de Informação – AGESIN, com o projeto “Seu livro”, iniciou-se a prática de Book Crossing, que é um movimento, que em alguns países, prega o ato de doar livros, deixá-los em um local público para que sejam encontrados e lidos por outros leitores. Hoje se encontra vários projetos neste sentido em nossa cidade, como o vale cultura que está começando a ser distribuído aos trabalhadores e que pode (e deve, ao nosso ver) ser usado em compras de livros. Feiras livres de troca em praça pública, encontros de leitores também são práticas que tem aumentado em nossa cidade e iniciativas, como aquela dos textos pendurados nos bancos dos ônibus, como a da venda de livros em revistas femininas, que podem fazer a diferença. Nas redes sociais também percebemos o esforço e as diversas formas de incentivo, ainda que seja publicando o título do que se está lendo, aguçando a curiosidade alheia.

E se tivessem livros nas cadeiras dos serviços de atendimento ao público? Como nos bancos, nos laboratórios e até nas barracas de praia? Outro dia vi num restaurante uma cesta com livros para empréstimo aos clientes. Que vennham mais lugares para iniciar o estímulo e a formação do hábito da leitura, aumentando o número de leitores e consequentemente, de cidadãos conscientes. Que se comece por textos, por redes sociais, por qualquer tipo de leitura como quadrinhos, auto ajuda pois, o que importa, é desenvolver o hábito da leitura e formar cidadãos críticos e participativos.

Texto baseado na publicação do artigo “Retratos da leitura no Brasil” pela autora, publicado no blog do Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª. Região – CRB-6 em 07/12/2012 por ocasião da divulgação da pesquisa. Na internet em http://blog.crb6.org.br/artigos-materias-e-entrevistas/retratos-da-leitura-no-brasil/ e atualizado em 12/02/2014.

Fonte: Administradores.com.br