Quatro eventos literários vão ocupar a cidade de Brasília nos próximos meses

Os livros e a leitura são as estrelas de eventos que ocorrem na cidade até setembro

Brasília vai virar a terra da leitura nos próximos meses. Programados para ocupar a agenda entre julho e setembro, quatro eventos literários marcam a agenda da cidade com um circuito que envolve de tudo, quando se trata de livros e leitores. Exposição que convida à interação com as letras, encontros com autores em bares e parques e uma maratona de mesas temáticas com alguns dos melhores nomes da produção brasileira e latino-americana fazem parte da programação, que tem início este mês e só se encerra em 7 de setembro.
A maratona começa no próximo dia 26, com a exposição Eu leitor, na Biblioteca Nacional. Um circuito interativo e sensorial simula uma viagem pela experiência da leitura. “A exposição tem uma parte mais informativa, com caráter quase didático na primeira parte, com história da literatura e uma história do livro como suporte e da própria escrita”, avisa Luiz Carreira, curador da mostra.
Dividida em seis núcleos que convidam o visitante a, aos poucos, se tornar um leitor, a exposição reflete sobre o ato de ler e de escrever, conta a história da literatura, mergulha na experiência da contação até desembocar em uma biblioteca com ambiente pensado para a leitura.
Além do percurso, será possível encontrar autores e artistas ligados ao mundo dos livros. Uma série de conferências traz escritores como Cristóvão Tezza, Ana Miranda e Rodrigo Lacerda. “A ideia não é uma palestra que explique determinado livro, mas que eles falem do impacto pessoal de determinadas leituras e de sua própria formação como leitores”, avisa Carreira, que também convidou nomes de Brasília, como Lucília Garcez, Vladimir Carvalho e os irmãos Guimarães (Adriano e Fernando).
No início de agosto, os parques da cidade vão receber o Livre! Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos. A cada domingo, um escritor da cidade e um de fora se encontram para conversas inspiradas em temas como a democracia, a liberdade de expressão, as narrativas negras e a homoafetividade na literatura. No total, participam dezenas de autores, incluindo os homenageados Conceição Evaristo e Nicolas Behr.
“Estamos vivendo momentos de muitos retrocessos e cada um tem que desempenhar um papel para que isso não aconteça. E nós, escritores, também precisamos nos engajar. Não é fazer uma literatura engajada, mas usar o recurso que a gente tem, que é a escrita, para refletir e pensar o estado de coisas que estamos vivendo”, explica Paulliny Gualberto Tort, autora de Allegro ma non troppo e idealizadora e curadora do Livre!
Preocupações como a de Paulliny, em relação à sociedade brasileira, também guiaram o curador Sérgio Léo, responsável pela lista de convidados da IV Bienal Brasil do Livro e de Leitura. Programada para ocupar o Centro de Convenções Ulysses Guimarães entre 18 e 26 de agosto, a Bienal vai trazer à cidade alguns dos melhores nomes da literatura contemporânea nacional para participar de conversas que vão refletir sobre o tema Os outros” somos nós: um mergulho na experiência alheia através da literatura.
“Da extrema esquerda ao fórum mundial de Davos, as pessoas estão perplexas com o que está acontecendo, com a polarização, a falta de senso comunitário, com essas figuras que crescem politicamente pregando o ódio ao diferente”, explica Sérgio Léo. “A  ideia é fazer uma bienal plural, que tenta não ficar fechada em uma visão de mundo única, e ao mesmo tempo ver que os outros somos nós.”
A literatura permite uma empatia capaz de levar o leitor a refletir sobre as próprias crenças e posições e até mesmo questioná-las. “Na literatura, a gente descobre que pessoas totalmente distintas de nós, do nosso círculo, de nossas ideias, têm coisas que nós temos também. E, às vezes, nossos heróis têm defeitos que a gente abomina e acha que só os vilões é que têm”, aponta Sérgio Léo, que escolheu homenagear a professora Gina Vieira Ponte. “Poucas vezes são homenageadas aquelas pessoas que despertam o encanto pela literatura. E poucas pessoas amam mais a literatura e fazem mais pela literatura que os professores.”
Com cerca de 20 mesas, a Bienal terá discussões sobre revistas literárias na internet, tradução, diferentes formas de expressão que perpassam a literatura e até sobre livros que ainda não foram lançados. Entre os convidados estão autores como Tiago Ferro, Ana Paula Maia, João Silvério Trevisan, Clara Averbuck, Lourenço Mutarelli, Zeca Camargo. De fora vêm Patricio Pron (Argentina), Juan Gabriel Vasquez (Colômbia), Selva Amada (Argentina), Alice Oseman (Inglaterra) e Chigozie Obioma (Nigéria).
Em setembro, é a vez da segunda edição da Movida Literária, que vai ocupar bares e cafés da cidade com mesas de discussão de autores locais. Com o slogan Ler, beber e conversar, o evento está um pouco menor que o de 2017, quando a organização realizou um crowfunding que permitiu trazer escritores de fora do Distrito Federal. Este ano, com esquema de custo quase zero, a Movida traz a gaúcha Verônica Stigger como a Boêmia da vez e haverá apenas uma mesa por noite, em vez das duas dos anos passado. Antes de cada debate, haverá um sarau de poesia. “Queremos misturar pessoas novas e consagradas”, avisa José Rezende Jr., um dos organizadores do festival.

Professora inspiradora
00Gina Vieira Ponte emocionou Lázaro Ramos e Pedro Bial ao contar como passou de uma menina acuada pelo racismo, com autoestima destruída, a uma leitora ávida e, mais tarde, a uma professora fundamental na vida de centenas de alunos da rede pública. Nascida em Brasília, a professora de 46 anos viu seu nome ganhar projeção nacional depois de participar do Espelho, programa de entrevistas apresentado por Lázaro Ramos no Canal Brasil, e do Conversa com Bial, da Rede Globo, ambos exibidos no ano passado. Mas o trabalho de Gina é muito anterior à descoberta por parte dos globais. Idealizadora do programa Mulheres inspiradoras, ela faz, diariamente, há 27 anos, uma diferença enorme na vida de adolescentes da Ceilândia.
O programa busca apresentar aos jovens da rede pública referências de mulheres que se tornaram grandes nomes da literatura e de outras áreas. Os alunos são convidados a ler biografias de seis mulheres e 10 livros escritos por grandes autoras, um lote que inclui Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, O diário de Anne Franck e Eu sou Malala, de Malala Yousafzai. “Eles tiveram a oportunidade de ampliar o repertório de leitura com mulheres, porque, tradicionalmente, não se lê mulheres na escola”, lembra .
A metodologia criada por Gina tem o objetivo de engajar os alunos no processo de aprendizagem e fez tanto sucesso que ganhou quatro prêmios, patrocínio do Banco de Desenvolvimento da América Latina e, desde o ano passado, se tornou política pública do Governo do Distrito Federal (GDF). Das 15 escolas atendidas até 2017, o Mulheres inspiradoras vai chegar a 30 escolas do DF. Uma vitória para quem começou a ler com muita dificuldade graças à dedicação de uma professora que pegou a menina pela mão depois de notar a enorme vontade de aprender. Professora do Centro de Ensino Fundamental 12, na Ceilândia, durante anos, hoje ela trabalha no Centro de Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação.
“Sou uma profunda conhecedora da experiência da escola pública, sei a potência que ela tem e acho que essa potência é subestimada pelas pessoas. E realmente há um projeto de desmonte da escola pública, há interesse que ela não funcione. O que é péssimo, porque todo mundo perde quando ela não funciona”, destaca a professora.

Programe-se

26 de julho a 23   de setembro 
— Eu leitor

18 a 26 de agosto 
— IV Bienal Brasil do Livro e da Leitura

5 a 26 de agosto 
— Livre! Festival Internacional de Literatura e Direitos Humanos

1º a 7 de setembro
 — Movida literária