Lázaro Ramos aborda questão racial em livro

O livro”Na minha pele” alterna registros de memórias e análises sobre racismo, formação de identidade e questões de gênero

Na minha pele está longe de ser uma biografia e Lázaro Ramos faz sempre questão de reforçar esse detalhe. O ator de 38 anos não gosta da ideia de autobiografia quando se tem ainda uma boa caminhada pela frente. O esclarecimento é importante para mergulhar em Na minha pele porque ali há, sim, relatos autobiográficos, mas são apenas trechos usados para ilustrar um tema que Ramos considera urgente e relevante. É um livro sobre a questão racial e a importância da pluralidade com uma proposta de diálogo que convide a sociedade brasileira a refletir sobre o tema.

O ator começou a escrever o livro há 10 anos, mas deixou o projeto de lado. Achou que estava muito técnico, pouco emocional, excessivamente analítico. Na minha pele tomou outra forma desde aqueles dias em que o ator começou a analisar os dados do IBGE. Ficou muito mais emocional e isso fica claro especialmente no início do livro, quando ele fala sobre a família e a infância na ilha do Paty, na Bahia de Todos os Santos. Naquela época, ele conta, não tinha muita consciência das diferenças impostas pelo racismo. Ser negro não era uma questão para o menino, até porque praticamente todo mundo na ilha era da mesma família e, quando se referiam à cor, os familiares diziam: “A gente, que é assim”. A consciência se instalou aos poucos, quando, menino, ele se mudou para Salvador para morar com a tia e estudar.

No livro, Ramos narra episódios de discriminação, reflete sobre a questão racial, sabe que fala de uma posição de exceção, mas também dá voz aos outros, incorpora depoimentos e enriquece o debate. Das entrevistas realizadas para o programa Espelho, no qual conversa com personalidades sempre enfatizando aspectos da cultura negra, o ator trouxe muitos depoimentos preciosos. Pessoas como a escritora Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor, a jornalista Glória Maria, o ator Zózimo Bulbul, primeiro protagonista negro da televisão brasileira, ganham voz para falar do tema.

É importante, assim como é importante a postura do próprio Lázaro Ramos, um dos nomes que ajudou a mudar a presença do ator negro na televisão brasileira. Em Na minha pele, ele explica porque nunca aceitou nem aceitará papéis em que apareça com uma arma na mão ou nos quais seja um escravo sempre ameaçado pelo tronco.

Ramos fala disso no livro numa triste constatação. Na minha pele é exercício de cidadania, leitura essencial para quem quer um Brasil menos desigual e mais diverso.

Fonte: Portal AZ