Feira do Livro de Porto Alegre: 65 anos de resistência a céu aberto

Mantendo slogan de sua estreia, “se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”, feira inicia nessa sexta

Feira vai de 1 a 17 de novembro - Créditos: Foto: Bere Fischer/Câmara Rio-Grandense do Livro
Feira vai de 1 a 17 de novembro / Foto: Bere Fischer/Câmara Rio-Grandense do Livro

Em meio à crise do mercado editorial brasileiro, que se aprofundou ainda mais no ano passado, com os pedidos de recuperação judicial da empresa Bookpartners, distribuidora de livros, assim como das livrarias Cultura e Saraiva, tendo essa última, encerrado esse ano as atividades de uma de suas filiais que se localizava no centro da capital, estreia nessa sexta-feira (01), a 65ª Feria do Livro de Porto Alegre. A maior Feira do Livro a céu aberto da América Latina ocupará, até o dia 17 de novembro, a Praça da Alfândega, no centro da capital gaúcha. Promovida pela Câmera Rio-Grandense do Livro (CRL), o lema desse ano será “Curiosidade é o que nos move”. E pelo quarto ano consecutivo terá uma mulher como patrona.

Idealizada pelo jornalista Say Marques, na época diretor-secretário do Diário de Notícias, a Feira inaugurada em 1955 foi criada por iniciativa dos livreiros e editores gaúchos, e contava, em sua primeira edição, com apenas 14 expositores. 65 anos depois, de forma ininterrupta, chega agora, com 106 expositores associados, sendo sete na área internacional, 13 na área infantil e 86 na área geral. A estimativa é que ela receba, como nas últimas edições, mais de um milhão de visitantes. Trinta por cento do público que prestigia o evento vem do interior do Estado e cidades vizinhas.

Primeira edição ocorreu em 1955 | Foto: CP Memória

Com orçamento mais enxuto, no valor de R$ 2 milhões, e sem o patrocínio de entidades federais, como a Petrobras, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que desde o ano passado estavam em tratativas para apoiar a atual edição, o evento, esse ano, está focado na programação e na qualidade.

“Tentamos insistir com o governo federal para tentar viabilizar, contudo não foi possível. Cada ano a gente parte do zero em relação a captação de recursos. Perdemos esses patrocínios federais, mas em contrapartida buscamos outras saídas, outros patrocinadores, como na iniciativa privada, por exemplo, para que conseguíssemos aportar o valor necessário. Nós nos reinventamos a cada ano”, afirma o atual presidente da Câmara do Livro, Isatir Bottin Filho.

Isatir espera que, nos próximos anos, o governo repense essas ações em relação à cultura e retornem os patrocínios. “Esses apoios são muito necessárias para cultura, uma vez que um país sem cultura não tem como crescer”, frisa, ao destacar o grande mérito da Feira, a bibliodiversidade, além de ter todas as atividades culturais gratuitas e de fácil acesso.

“Nós nos reinventamos a cada ano”, diz Isatir | Foto Guilherme Santos Sul21

“A Feira do Livro de Porto Alegre acaba sendo uma vitrine onde leitores podem encontrar uma bibliodiversidade que não encontrarão em nenhuma livraria, nem mesmo nos mega portais da internet, incluindo as produções das pequenas editoras que atuam em nichos específicos, passando pela produção de diferentes editoras acadêmicas e livrarias especializadas. É esse contato direto com o que há nos acervos que permite, muitas vezes, descobrir algo que não se estava buscando. Essa descoberta nos leva mais além, nos permite sair das bolhas e alcançar novas experiências”, destaca o editor João Carneiro, proprietário da Tomo Editorial, e que integrou a diretoria da CRL de 2006 a 2011, estando presidente por duas gestões nesse período.

No caminho oposto ao mercado editorial

Caixas de saldos que são muito procuradas | Foto: Diego Lopes/Câmara Rio-Grandense do Livro

A pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, divulgada em abril desse ano, traçou o recente diagnóstico do setor. Com levantamento feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE), em conjunto com a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o documento revelou que, no ano passado, o setor encolheu 4,5% em valores reais, e com queda de 0,95 em valores nominais. Os números levam em conta a inflação observada na época.

A pesquisa aponta que 2018 se tornou o quinto ano seguido de queda, ficando com um faturamento de R$ 5,1 bilhões. De acordo com o estudo, o faturamento das livrarias caiu para R$ 1,9 bi. O número de exemplares vendidos nas livrarias foi de cerca de 94 milhões, o que corresponde a 46% dos livros comercializados pelo mercado.

No ano passado, de acordo com Isatir, a feira seguiu o caminho oposto, registrando crescimento. Para ele, um dos motivos pode ser prática de desconto aplicada na feira, que parte de uma média de 20%. “A nossa feira é uma feira de desconto. Tem editoras com livros próprios que praticam descontos maiores, chegando até 50%. Ainda temos sebos, as caixas de saldos que são muito procuradas. Com isso tudo, tivemos um acréscimo nas vendas de 9%. Acreditamos novamente que esse ano vamos superar os valores do ano passado, conseguindo ter crescimento na feira”, pontua.

A feira em tempos de cais

A expansão da feira, com o decorrer dos anos, fez com que ela, entre os anos de 2005 a 2012, época de grande aquecimento do mercado, chegasse a ocupar espaços no cais de Porto Alegre. Tendo um orçamento de R$ 4 milhões na época, os armazéns do cais, por exemplo, se transformavam em espaços de teatro, com capacidade para mil pessoas. Pelos armazéns passaram escritores como o moçambicano Mia Couto, em 2012.

Com o fechamento do espaço para sua revitalização (ainda não concluída e envolvida em embate), a Feira voltou a se concentrar nos limites da praça. Para João Carneiro, a perda do espaço do Cais do Porto (que era basicamente um espaço de atividades especialmente voltadas aos leitores infantis e juvenis) contribui para a ideia de redução da feira, contudo, observa, o número de expositores tem se mantido mais ou menos na faixa entre 80 e 100, o que não é pouco, frisa.

Segundo Isatir, o mercado, de uma forma geral, teve uma diminuição. “Não é que a feira tenha diminuído, nós estamos acompanhando o mercado, os limites da Feira da praça da Alfândega, hoje, nos atendem bem sem comprometer a programação e nem o número de expositores”, aponta.

Mesmo assim, o presidente sonha com o dia em que a feira volte a ocupar o cais. “Tem todo aquele contato com o rio, que os gaúchos quase não tem atualmente, com exceção da orla que foi ativada recentemente. Os armazéns do cais e o cais do porto trazem muito dessa nostalgia, de uma cidade com um porto, que só teremos se voltarmos a frequentar aqueles espaços. Isso só vai ser possível com a retomada das obras do cais, talvez um novo contrato, um novo permissionário”, observa.

Vitrine para novas vozes

Renata Machado volta a feira neste ano para lançar mais um trabalho | Foto: Divulgação 

Para Isatir, o Rio Grande do Sul tem uma produção literária muito ampla e, em momentos como a Feira do Livro, autores tem a oportunidade de divulgar, difundir e vender seus livros. Como o caso da jornalista e escritora Renata Machado, que no ano passado lançou seu livro solo “Mosaico de Reflexos” e, em outras ocasiões, obras coletivas, oriundas de oficinas literárias.

“É sempre uma emoção muito grande ver um livro que pensamos e criamos durante meses pronto, nas bancas, estar naquele espaço dentro de um evento tradicional como a Feira, confraternizar com pessoas especiais para a gente, que acompanharam essa trajetória, é uma experiência linda de se vivenciar”, relata a jornalista que, mais uma vez, no dia 6, de novembro, estará com outros colegas lançando a coletânea de contos “Tudo em Movimento”, fruto da oficina de Literatura e Psicanálise, ministrada pela psicanalista e escritora Ariane Severo.

Além de oportunizar o lançamento de novos escritores, Renata destaca também a fase de preparação da feira, que chama atenção de quem passa pela praça, a montagem das bancas, da estrutura, assim como a circulação dos escritores e autores na praça durante esses dias. “Temos a oportunidade de ter um contato mais próximo com os escritores e autores que admiramos, através das sessões de autógrafos e demais eventos durante essas duas semanas de feira”.

Um desses encontros acontecerá no dia 14 de novembro, no evento “Conversa com o Patrono da 53ª Feira do Livro de Porto Alegre”, onde Antônio Hohlfeldt, jornalista e professor universitário, receberá a jornalista Tânia Jamardo Faillace, no Centro Cultural Érico Veríssimo, para um bate-papo sobre a obra da escritora, que nasceu em Porto Alegre, em 1939, e que atuou em Zero Hora e no extinto Coojornal.

Tânia, que foi repórter, cronista, colunista e produtora de programas de rádio, como escritora foi autora de romances, novelas e contos, além de ter participado em mais de 20 antologias publicadas, no Brasil e no exterior.

Além de escritores regionais e nacionais, a atual edição terá mais de 12 escritores e pensadores internacionais, entre eles o sociólogo e professor francês Philipe Joron, o sueco Mats Strandberg, os italianos Vicenzo Susca e Fabio LaRocca, a jornalista alemã Caren Miesenberger, a angolana Djaimilia Pereira de Almeida e as argentinas Liliana Heer, psicanalista, escritora e crítica literária, e Mariana Travacio, psicóloga. O lançamento oficial da feira será às 18h30, com a presença da diretoria da Câmara Rio-Grandense do Livro e da patrona Marô Barbieri.

“Em tempos difíceis como os que estamos vivendo, reafirmar a leitura, o conhecimento e o esclarecimento como bases de uma sociedade democrática é extremamente importante. Não se pode aceitar o obscurantismo que se alça em torno do poder, e a Feira como um espaço de incentivo à leitura cumpre um papel de resistência. Este mesmo papel, a Feira do Livro de Porto Alegre vem cumprindo ao longo de toda sua história”, conclui João Carneiro.

Veja aqui a programação completa: https://www.feiradolivro-poa.com.br/programacao/

Fonte: Brasil de Fato