O Estímulo à Leitura

Ivan Maciel de Andrade
Advogado

Algumas das mais importantes obras literárias – talvez grande parte delas – exigem um tipo de leitor afeito a uma linguagem mais sofisticada do que aquela usada pela imprensa ou em best-sellers. E também que seja capaz de não se intimidar com as técnicas de criação inovadoras.

Esse leitor deve ter, de preferência, boa iniciação literária e precisa de ampla disponibilidade de tempo, roubado às ocupações diárias. E que não se pense haver exagero, mas ele deve contar também com as condições que possibilitem o isolamento para efeito de longas concentrações.

Então, no mundo da internet de hoje, em que a simples e cotidiana conversa entre amigos e familiares se torna difícil ou inviável pelo uso obsessivo de smartphones e outras parafernálias, se afigura utópico imaginar que esse perfil de leitor qualificado e seletivo seja fácil de encontrar. Acresce que há melhores condições dele surgir – ressalvadas as naturais exceções – nas camadas sociais de mais elevada renda. Ou seja, será um leitor, de modo geral, com status privilegiado.

Não é de surpreender, portanto, que de vez em quando surjam propostas de “simplificação” e “popularização” dessas obras de grande valor literário, de iniciativa de editores e até mesmo de críticos literários preocupados com o quase ostracismo de tais livros, de leitura restrita, por sua complexidade, praticamente a escritores e professores de teoria literária. É o caso paradigmático do “Ulisses” de James Joyce. Essas propostas – que não deixam de constituir um grande desafio, pois teriam de preservar as qualidades essenciais da obra simplificada ou tornada acessível ao grande público – se destinam a estimular e a facilitar o democrático acesso à chamada “alta literatura”.

O principal objetivo seria o de conduzir, engenhosamente, o leitor inexperiente e com poucas habilitações, através dessa estratégia, ao contato com as versões consagradas. Mas essas ideias sempre suscitam virulentos protestos nos meios acadêmicos e entre ensaístas autores de estudos, análises e interpretações acerca dessas obras especialíssimas: a simplificação e popularização pretendidas, argumentam, desfigurariam as criações originais, degradando-as literariamente, num desserviço à própria cultura universal. É preferível, então, que elas permaneçam muito pouco lidas ou inevitavelmente elitizadas, mas intactas, preservadas em sua irradiante perfeição estética.

Em outro patamar, mas tratando ainda e sobretudo do estímulo à leitura, no Brasil ocorre um fenômeno interessante: os livros sobre personagens e episódios da nossa história se tornaram tão agradáveis de ler que, de uma hora para outra, viraram best-sellers, campeões de venda, ao lado das invencionices de autoajuda. Ao invés de usar uma forma acadêmica – grave, circunspecta, seca, em que os fatos e as datas parecem participar de um desfile cívico –, passaram os autores desses novas obras de história a escrever com a descontração e a simplicidade de quem faz uma reportagem. É bem verdade que são obras baseadas em ampla e exaustiva pesquisa, mas que fica subentendida, não interferindo no texto. Um exemplo de inteligente e eficaz estímulo à leitura.

Fonte: Tribuna do Norte