Editoras submetem obras a leitores pertencentes a minorias sociais

Tendência começou nos países de língua inglesa e chegou ao Brasil, pela Companhia das Letras

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O empoderamento das minorias sociais vem sendo sentido em diversos espaços de criação e fruição humana, como na música e no cinema. A literatura é outro campo criativo em que os movimentos organizados de gays, negros, mulheres e portadores de deficiência física são cada vez mais representados ou ouvidos.

Tendência que vem ganhando espaço nas editoras brasileiras, os chamados sensitivity readers (leitores sensíveis) são pessoas pertencentes às minorias, contratadas para lerem obras ficcionais (antes de serem lançadas) que tenham personagens ou protagonistas pertencentes às minorias.

A leitura deve resultar num relatório sobre como se sentiram ali retratadas, e o objetivo das editoras é impedir que o livro, após sua publicação, provoque reações adversas na sociedade e venham a ser banidos de escolas, bibliotecas e até livrarias.

As editoras passaram a tomar esse cuidado de maneira mais sistemática após polêmica envolvendo duas obras infantis nos Estados Unidos, entre 2015 e 2016: “A Fine Dessert”, de Emily Jenkins; e “A Birthday Cake for George Washington”, de Ramin Ganeshram.

Ainda sem tradução para o português, ambas as obras foram condenadas por suavizar a escravidão ao retratar os negros dos séculos 18 e 19 sorridentes nas ilustrações.

Emily Jenkins chegou a pedir desculpas, no final de 2015, por não ter notado isso em “A Fine Dessert” (“Uma sofisticada sobremesa”, em livre tradução), que perpassa 400 anos de uma sobremesa à base de amora, muito apreciada nos EUA, a Blackberry Fool.

Ramin Ganeshram registrou ter ficado estarrecida com as reações ao seu livro “A Birthday Cake for George Washington” (“Um Bolo de Aniversário para George Washington’) de 2016, em que conta uma história ficcional envolvendo o cozinheiro do primeiro presidente norte-americano: o escravo Hercules, um personagem que existiu. “Imagine meu horror quando o livro infantil que escrevi para celebrar este americano negro talentoso foi distorcido e interpretado como uma defesa da escravidão”, escreveu ela, ao Huffpost.

No Brasil e em Santos

A Seguinte (braço editorial da Companhia das Letras), que publica obras voltadas ao público jovem, contratou a advogada travesti Tera Johari para participar do processo de leitura e tradução do livro “Fera”, de Brie Spangler, que está nas livrarias e traz uma personagem trans. Johari fez um relatório em que avaliou a tradução e trouxe um glossário de termos utilizados no meio.

Dois editores santistas comentaram essa tendência e ambos concordam que submeter o manuscrito a esses leitores é uma forma de censura à liberdade criativa.

“O mercado editorial, assim como outros segmentos, são muito influenciados pelo poder das redes sociais. Mas, se não tomar cuidado, os editores vão fazer tantos experimentos antes de arriscar a publicar um livro que correrá o risco de atenuar o conteúdo original da obra”, opina José Luiz Tahan, da Realejo Livros & Editora. Ele sugere que as editoras contratem representantes dessas minorias para o corpo editorial. “Nesse meio, todo mundo tem de ser sensível. Não se pode terceirizar a sensibilidade”.

Rodrigo Simonsen, da Simonsen Editora, ressalta que as pessoas estão olhando as coisas erradas na literatura. “Precisamos buscar aquilo que nos une enquanto humanidade. Se dependesse desse tipo de leitor sensível, poderíamos não ter obras gigantescas, como “Macbeth”, de Shakespeare, que já foi acusado de ter sido escrito para domesticar as mulheres, ou as obras de Mark Twain seriam consideradas um desserviço à memória dos negros. Não teríamos Monteiro Lobato, nem Nelson Rodrigues. Essa prática pode virar um monstro que se retroalimenta”.

Fonte: A Tribuna