Biografia resgata a relevância de G. K. Chesterton como escritor e filósofo

O intelectual britânico disse, no início da década de 1930, que o perigo era o excesso de informação superficial e vulgar

“Sabedoria e Inocência — Vida de G. K. Chesterton” (Ecclesiae, 646 páginas), de Joseph Pearce, é um excelente estudo sobre a vida e a obra de um escritor (e filósofo) de qualidade mas subestimado, quiçá por ser religioso (persiste o preconceito de matiz marxicida de que a religião, um dos mais poderosos fenômenos culturais da história da humanidade, é meramente alienante). Mateus Leme, autor da tradução escorreita, conta que o autor britânico publicou 80 livros, mais de 4 mil artigos e uma centena de contos e poesias. Ele ressalta a “extraordinária profundidade de seus textos” e seu “contagiante bom humor”. O poeta, contista e crítico argentino Jorge Luis Borges escreveu: “Toda a boa literatura é uma forma de alegria, e nenhum autor me deu tantas alegrias quanto Chesterton”.

Joseph Pearce frisa que a “genialidade” de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), “um dos gigantes da literatura do século 20, era equivalente à de Bernard Shaw e H. G. Wells”. Inquirido se Shaw era “um perigo vindouro”, respondeu: “Céus, não; ele é um prazer em extinção”. O dramaturgo irlandês considerava o autor de “O Homem Que Era Quinta-Feira” e “O Segredo do Padre Brown” como um “gênio colossal”.

A “genialidade” de Chesterton reside, sublinha Joseph Pearce, “na profundidade de sua filosofia”. “O homem moderno é como um viajante que esqueceu o nome de seu destino, e tem que voltar ao lugar de onde veio, até mesmo para descobrir aonde está indo”, escreveu Chesterton. Ronald Knox frisa que “um dos princípios favoritos de Chesterton era o de que é possível ver uma coisa tantas vezes até que pareça totalmente desgastada por sua familiaridade, e então repentinamente vê-la pela primeira vez […], e era possível ter uma visão da verdade da mesma forma — ver uma coisa como realmente é pela primeira vez, porque todas as novecentas e noventa vezes em que você a viu antes lhe deram apenas uma imagem convencional dela, e perderam sua verdade essencial”. O próprio Chesterton assinalou: “Sou o homem que com grande ousadia descobriu o que já havia sido descoberto antes”.

Ronald Knox disse que Chesterton, “com quase toda a certeza, será lembrado como um profeta em uma era de falsos profetas”. Malcolm Muggeridge menciona um texto do ensaísta, de 1905: “Os ansiosos livres-pensadores não precisam se preocupar tanto com as perseguições do passado. Antes que a ideia liberal esteja morta ou triunfe, veremos guerras e perseguições como o mundo nunca viu iguais”. Ióssif Stálin e Adolf Hitler ainda eram “embriões” do que, com suas antenas, Chesterton estava prevendo, com anos de antecedência.

Na conferência “A cultura e o perigo vindouro”, de 1930, Chesterton disse que “o perigo vindouro não era o bolchevismo, pois este já havia sido tentado, e a ‘melhor forma de destruir uma utopia é implantá-la. O resultado final do bolchevismo é que o mundo moderno não vai imitá-lo’. Não era também outra guerra mundial, embora a próxima guerra ‘vai acontecer quando a Alemanha tentar mexer nas fronteiras da Polônia’. O perigo vindouro era ‘a superprodução intelectual, educacional, psicológica e artística que, da mesma forma que a superprodução econômica, ameaçou o bem-estar da civilização contemporânea. As pessoas foram inundadas, cegadas, ensurdecidas, e mentalmente paralisadas por uma enxurrada de externalidades vulgares e de mau gosto, que as deixaram sem tempo para o lazer, o pensamento ou a criatividade pessoal”. O comunismo estava no poder havia 13 anos e Hitler só assumiria o comando da Alemanha três anos depois. Note também que o texto tem 87 anos mas, dado o excesso de informação e contrainformação gestado pelo mundo contemporâneo, e não só pelos adeptos da pós-verdade (irmã siamesa da pré-mentira), parece ter sido escrito hoje.

Na introdução à autobiografia de Chesterton, Richard Ingram pontuou que “o quão contemporâneo ele é”.

Há quem, como o historiador francês Ettiénne Gilson, avalie Chesterton como teólogo. O pesquisador sustenta que a biografia de São Tomás de Aquino escrita por Chesterton é, “sem comparação possível”, o “melhor livro já escrito sobre São Tomás”.

A filosofia era, para Chesterton, “divertida” e “engraçada”. “O segredo da vida está no riso e na humildade”, vaticinou. Os que têm fé, como ele tinha, não precisam ser sisudos. Na “rara combinação de diversão e filosofia, e na união entre a lógica e o riso, está o segredo do encanto de Chesterton e de seu sucesso como defensor do cristianismo”, sugere Joseph Pearce. “C. A. Lewis, Evelyn Waugh e Graham Greene admitem a profunda influência de Chesterton em suas respectivas conversões.”

Dorothy L. Sayers descreveu Chesterton como “um libertador cristão”: “Como uma benéfica bomba, ele explodiu e lançou para fora da Igreja uma grande quantidade de vitrais de um período muito ruim, e deixou entrarem lufadas de ar fresco, nas quais as folhas mortas da doutrina dançavam com toda a energia e falta de decoro do Malabarista de Nossa Senhora”.
Joseph Pearce postula que havia um caso de amor de Chesterton por Jesus Cristo. “Se as sementes na terra negra podem transformar-se em rosas tão belas, o que não poderá se tornar o coração do homem, em sua longa jornada até as estrelas?”, perguntou, respondendo, o notável escritor inglês.

O breve comentário resulta da leitura das primeiras páginas da obra de Joseph Pearce. Recomendo ao leitor, vivamente, a leitura desta biografia bem escrita e bem traduzida. Os que estão obcecados pelo mundo atraente da internet — aquele que sugere que uma reportagem sobre educação é menos importante do que uma matéria a respeito da nova “modelo” que vai posar nua para a revista “Playboy” — deveriam ler, ao menos com certa atenção, sobre a vida e as ideias de Chesterton.

Fonte: Jornal Opção

 

Mais informações sobre o livro:

 

Autor: Joseph Pearce

Formato: 16 x 23 cm

Páginas: 656

Editora: Ecclesiae

 

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