Biografia de Jorge Amado reconstitui saga da literatura brasileira

Obra da jornalista Joselia Aguiar é um relato profundo da vida e obra do escritor baiano

Imagem do livro Jorge Amado – Uma Biografia – Foto: Reprodução/Editora Todavia

Estava lendo a biografia de Jorge Amado, escrita pela jornalista Joselia Aguiar, quando a autora foi nomeada diretora da Biblioteca Mário de Andrade. Motivado pela qualidade e densidade da biografia, por Josélia ser mestre e doutoranda em História pela USP, por ter sido duas vezes curadora da Festa Literária Internacional de Paraty, sugeri ao Marcello Rollemberg, editor de Cultura do Jornal da USP, uma entrevista com ela sobre livros.

Sim, livros. Nenhum em especial, mas livros, cuja história inicial Frédéric Barbier retrata detalhadamente em A Europa de Gutemberg – O Livro e a Invenção da Modernidade Ocidental (Séculos XIII-XVI). Livros que dão substrato à nossa cultura e civilização e demonstram uma louvável e surpreendente resiliência ao avanço da internet e seus filhotes, principalmente seus filhotes que, mais do que democratizar seus conteúdos, dão vazão ciclópica aos que se dedicam a destruí-los.

Por que os livros resistem mais do que outros produtos impressos, qual o seu segredo, a sua especificidade, qual será o seu futuro? Continuarão com sua missão civilizatória no formato impresso? O que se perde ao trocar de plataforma? Ou se ganha?

Essas respostas estão na entrevista de Joselia. Aqui me cabe a difícil tarefa de resenhar e comentar a biografia de Jorge Amado escrita por ela, densa e de qualidade, como já escrevi.

Um trecho em especial prendeu minha atenção. Concentra o momento, ou o processo, de passagem de Jorge Amado de escritor engajado, comunista, garroteado para o romancista solto, libertário, imaginativo, criativo. Nesse trecho, o poeta chileno Pablo Neruda, em viagem conjunta com Jorge Amado pela Ásia, rememora o impacto das revelações do então secretário-geral do PC da União Soviética, Nikita Kruschóv, sobre os crimes de Stalin:

“Creio que fui um sectário de menor peso; minha natureza e o temperamento de meu próprio país me inclinavam a um entendimento com os demais. Jorge, pelo contrário, havia sido sempre rígido… O informe… fora uma marejada que nos empurrou, a todos os revolucionários, até situações e conclusões novas. Alguns sentimos nascer, da angústia engendrada por aquelas duras revelações, o sentimento de que nascíamos de novo. Renascíamos limpos das trevas e do terror, dispostos a continuar o caminho da verdade na mão… Jorge, ao contrário, parece haver começado ali, a bordo daquele navio, uma etapa distinta de sua vida.”

Parecia, registra Joselia, ter-se livrado do que Oswald de Andrade chamava de “sectarismo improdutivo”. São dessa fase “sectária”, entre outros, Capitães de AreiaO Cavaleiro da Esperança, biografia de Luís Carlos Prestes, Subterrâneos da LiberdadeO Mundo da Paz. Apesar de suas limitações estéticas, tiveram boa acolhida no Brasil e no exterior, especialmente nos países da Cortina de Ferro.

Não à toa, o capítulo seguinte à fala de Neruda tem o título de “Gabrielamania”. Nascia o romance Gabriela, Cravo e Canela, fenômeno editorial que multiplicou o sucesso de Jorge Amado, nacional e internacionalmente (inclusive na União Soviética, onde ele manteve seu prestígio), ganhou as telas das TVs e do cinema. Nessa esteira, surgiram, ao longo do tempo, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Teresa Batista Cansada de Guerra, além de inúmeros outros, em que Jorge Amado extravasava sua baianidade, vivência do mundo do cacau, seus trambiqueiros, coronéis, jagunços e prostitutas. Na sincrética Bahia, Jorge foi ogã de Oxóssi, ogã de Iansã e obá de Xangô e as crenças e mistérios do candomblé habitam, marcam e perpassam as suas obras.

Joselia relata em profundidade, com detalhes, citações, documentos, depoimentos, toda a trajetória de Jorge Amado, em que Zélia Gattai, claro, tem papel preponderante. É muito rico o relato da chegada de Jorge ao Rio de Janeiro, no começo dos anos 30, sua relação com o mundo da cultura e da imprensa, com editores e jornalistas, na busca de trabalho, de publicar seu primeiro romance, O País do Carnaval, de se afirmar naquele mundo de estrelas consagradas e vários escritores tão iniciantes como ele.

Eram tempos de intensas disputas ideológicas, o Brasil governado por Getúlio Vargas, num extremo o fascismo, no outro o comunismo, e Jorge, um humanista desde jovem, encantou-se pelo Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922, mais tarde liderado por Luís Carlos Prestes, o antigo comandante da Coluna Prestes.

Foi um militante aguerrido, com responsabilidades e muitas viagens internacionais, especialmente na área de cultura. Eleito deputado constituinte em 1946, após a queda do primeiro governo Vargas, foi cassado com seus pares em 1947, pois o Partido Comunista foi declarado ilegal e seus quadros se refugiaram na clandestinidade. Jorge exilou-se em Paris, de onde o governo francês forçou-o a sair depois de uma temporada, e em seguida na Tchecoslováquia.

A biografia do escritor escrita por Joselia Aguiar – Foto: Reprodução/Editora Todavia

Na Europa, estreitou ainda mais seu relacionamento com os grandes nomes da arte e da literatura do velho continente. Mas também foi se desencantando com os regimes comunistas à medida que tomava conhecimento, aqui e ali, de injustiças e perseguições na Cortina de Ferro. Jorge e Zélia não foram totalmente surpreendidos pelas revelações do relatório Kruschóv. Assim foi morrendo sua fidelidade ao Partido Comunista. Dirigentes do partido decretaram que, ao afastar-se da organização, seu sucesso literário minguaria. Deu-se o contrário.

Enfim, Jorge Amado: Uma biografia é, através do relato de sua vida, obra, trajetórias, um painel rico, detalhado, profundo de quase 90 anos da saga da literatura brasileira e suas correlações com a vida política e social do País. Críticas? Houve, inclusive da academia, mas secundárias. Suas convicções políticas o levaram ao exílio em momentos obscuros da história do Brasil. O exílio prejudicou-o ou abriu seus horizontes? Ao fim e ao cabo, prevaleceram seus superlativos talento e criatividade, com os quais construiu vasto e merecidíssimo reconhecimento nacional e mundial.

Joselia Aguiar conta com talento e inspiração essa história, pesquisada e escrita ao longo de sete anos, ao fim dos quais concluiu que “Jorge Amado é uma área de investigação interminável, que ainda deve ser explorada em muitos campos”.

Fonte: Jornal da USP