“As histórias pertencem aos leitores”: uma conversa com Fábio Moon e Gabriel Bá

Essa dupla de quadrinistas resolveu assinar seus trabalhos em conjunto e colocou a autoria em segundo plano. Para Fábio Moon e Gabriel Bá, o que vale são grandes histórias. E as HQs dessa dupla estão voando longe!

Se você é fã de histórias em quadrinhos e ainda não conhece o trabalho dos paulistanos Fábio Moon e Gabriel Bá, está na hora de rever suas referências. Os gêmeos da HQ são cartunistas importantíssimos na cena atual. E não só aqui no Brasil! O livro mais recente da dupla, Daytripper, foi lançado pelo selo Vertigo em mais de 10 países. A obra chegou a aparecer na lista de quadrinhos mais vendidos do New York Times.

Além disso, os irmãos já receberam um Prêmio Jabuti, na categoria “Didático, Paradidático e Ensino Fundamental ou Médio”, pela adaptação de O Alienista, de Machado de Assis, e um Prêmio Eisner por Daytripper.

Em agosto, esta dupla talentosa vai participar da Bienal Internacional do Livro de São Paulo para conversar com fãs e com todos aqueles que, como eles, são apaixonados pelas HQs. Mas, antes, eles bateram um papo com o nosso Blog e disparam: “Existe uma sensação mágica nessa ideia de que as histórias estão aí: no ar, nos livros, e de que elas pertencem aos leitores. Isso é mais importante do que saber quem é seu autor”.

Leia a entrevista completa!

Aficcionados por quadrinhos costumam ser leitores vorazes de HQs. Mas o que vocês gostam de ler e de assistir além das HQ’s e como outras linguagens (ficção, poesia, cinema) ajudam na construção da narrativa?

Gabriel – Lemos muita poesia na adolescência e isso influenciou muito nossa maneira de construir as frases, de brincar com palavras e seus significados, e também de explorar a métrica da narrativa e o ritmo da história. Sempre nos atraiu a possibilidade de dizer mais do que está escrito. E podemos fazer isso com as imagens também, o que é incrível. Uma rima, uma metáfora, um símbolo… Nos quadrinhos cabe tudo isso.

Fábio – Sempre gostamos muito de cinema, de contar uma história visualmente. A maneira como usamos as imagens nas nossas HQs, as escolhas de “câmera” são muito inspiradas em enquadramentos cinematográficos, justamente para ajudar a colocar o leitor dentro da história. Gostamos de quase todos os gêneros de cinema, do mais introspectivo ao filme de ação, desde que seja bem explorado, bem feito. E estes gêneros podem ser bem trabalhados nos quadrinhos também.

Gabriel – Da mesma maneira, víamos na literatura histórias muito mais variadas, com estilos e gêneros diferentes, em relação aos quadrinhos. Queríamos contar em HQs as histórias que líamos em livros ou que víamos em filmes. Sempre soubemos que havia muito a ser explorado. Ainda achamos que podemos quebrar barreiras, inovar. Este é e deve ser o desafio constante de qualquer expressão artística.

O Daytripper dá uma sensação muito harmônica, de unidade entre o textos e o desenho. O mesmo acontece na série 10 Pãezinhos, que vocês assinam como Moon/Bá. Isso nos passa a impressão de que compartilham muitos pontos de vista. Em que vocês discordam radicalmente?

Gabriel – Temos nossas diferenças, mas não deixamos chegar ao trabalho para não desgastá-lo. Só levamos adiante as histórias em que os dois acreditam, pois ficaremos alguns meses ou anos trabalhando nelas e precisamos do empenho dos dois para que o trabalho funcione.

Fábio –  Mesmo assim, sempre foi benéfico ter duas opiniões sobre tudo. Muitas vezes, ter uma visão diferente sobre seu trabalho pode ajudá-lo a ir mais longe do que iria se você estivesse trabalhando sozinho. Estamos sempre discutindo as ideias, as escolhas, tentando seguir sempre o melhor caminho para a história, independentemente de quem tem razão ou não.

Vocês são gêmeos! Isso exerce alguma influência no trabalho? E qual a diferença de trabalharem entre si e com outros parceiros?

Fábio – Como crescemos juntos, passando a maior parte do tempo lado a lado, temos muitas experiências em comum. Então, a nossa comunicação um com o outro é muito rápida. Nós nos conhecemos muito bem e conseguimos, rapidamente, entender o que o outro está pensando quando precisamos discutir, elaborar ou criar algo. E nós dois colocamos a qualidade do trabalho em primeiro lugar, acima da opinião pessoal. No nosso trabalho não existe a figura de quem é melhor ou mais importante. Importante é o trabalho final. Essa é a maior diferença do trabalho com outros parceiros: eles são pessoas com menos intimidade, que não estão acostumados com a nossa sinceridade brutal em relação ao trabalho, e que nem sempre estão vinte e quatro horas à disposição das histórias e das questões que elas podem levantar.

Vocês assinam juntos diversos trabalhos que fazem e preservam a autoria em dupla. Nunca identificam se foi o Bá ou o Moon quem desenhou determinada tirinha, por exemplo. Mas quais temas, quais estéticas e qual modo de ver o mundo são mais próprias de um e de outro? 

Fábio – Quando começamos a ler – tanto livros, quanto quadrinhos – não sabíamos que existia um autor. Existe a história de que você gosta, o personagem de que você gosta. Existe uma sensação mágica nessa ideia de que as histórias estão aí: no ar, nos livros, e de que elas pertencem aos leitores. É isso o que nos fascina desde a infância, e acho que preservar um pouco desse mistério é mais importante do que, de fato, saber quem são os autores. Mesmo assim, saber quem faz o quê nas nossas histórias é um bônus pra quem acompanha nosso trabalho. Com o tempo, os leitores vão descobrindo que o estilo de desenho de cada um é diferente, assim como as questões que cada um gosta mais de abordar.

Durante as manifestações de junho do ano passado, vocês publicaram duas HQs apoiando os protestos. Como política e quadrinhos conversam no trabalho de vocês?

Gabriel – Nosso trabalho fala das pessoas e da sociedade através de sentimentos, da maneira como os relacionamentos entre as pessoas refletem questões da sociedade hoje. Falamos de temas que são pertinentes, mas de forma que a história também ecoe no passado e sobreviva para leitores no futuro – um retrato da época, mas sem ficar datada. Temos muito pouco interesse em política, ou na política brasileira, mas naquele momento das manifestações, há um ano, ficou impossível ficar em casa sem fazer nada. Mais do que apoiar uma causa, estávamos apoiando o direito de expressão, de se manifestar, porque isso atinge a todos.

Fábio – As histórias que fizemos em nosso blog foram publicadas em uma revista independente chamada #sobreontem, com HQs e desenhos de vários artistas. O dinheiro das vendas foi doado ao Movimento Passe Livre para ajudar a pagar os custos das prisões ocorridas durante as manifestações. Foi um excelente exemplo de como os quadrinhos podem ajudar a comunicar uma mensagem para o público e de como podemos tratar de assuntos atuais e pertinentes. Mas tudo foi feito num impulso, num momento especial.

Gabriel – A produção de quadrinhos é um trabalho longo e lento – o que torna difícil a podução de histórias que tratem de temas atuais, dialogando com o presente imediato. Quase nada nos quadrinhos é imediato e isso nos afasta deste tipo de assunto. Os problemas que vemos no Brasil e no mundo, hoje, vão entrando no repertório de questões que podemos abordar, mas não precisa ser sempre um relato real, um documentário. Isso pode virar um elemento dentro de uma narrativa de ficção, por exemplo.

Os quadrinhos independentes têm ganhado muito espaço nos últimos anos. O que vocês têm descoberto de muito bom nessa nova safra?

Fábio – Gosto muito do trabalho independente do Rafael Coutinho, principalmente do “Beijo Adolescente”. Gosto das histórias mudas do Gustavo Duarte, do humor e do traço do Edu Medeiros.

Gabriel – Os quadrinhos independentes estão ficando cada ano melhores, mas também estão ficando mais caros e as tiragens continuam as mesmas, sem muita sobrevida ou novas edições. Está cada dia mais difícil encontrar os fanzines baratos, porque todo mundo já parte para revistas bonitas e bem impressas, com preços salgados. Muitas, inclusive, já foram pagas por campanhas de financiamento coletivo.

Ano passado, saiu uma coletânea chamada FRIQUINIQUE, com trabalhos do Tiago “Elcerdo” Lacerda, do Edu Medeiros, do Rafael Sica e do Stêvz de que gostei muito! Não parece uma revista independente, e sim um livrão de arte (inclusive no preço). Aliás, recomendo para quem gostar que compre direto no site, porque depois vai ficar difícil de achar!

Fonte: Blog da Bienal do Livro